The Garoupini Chronicles
quarta-feira, outubro 27, 2004
 
Um autêntico desfile 'best of'


Foi preciso esperar 20 anos para podermos ver ao vivo uma das mais importantes bandas da história da pop electrónica. Neil Tennant, a meio do concerto, fazia essa mesma pergunta «porquê tanto tempo?». A resposta ninguém a deu, mas a verdade é que a espera valeu a pena e a estreia portuguesa dos Pet Shop Boys foi uma noite de incrível desfile de canções que marcaram a história dos últimos 20 anos.

Sem álbum de originais para promover os Pet Shop Boys levaram ao palco instalado no Freeport Designer Outlet (em Alcochete) um autêntico sem fim de êxitos, partindo exactamente da receita da antologia Pop Art, acrescentando ao alinhamento apenas dois temas que nunca foram editados como single. Resultado: uma parada em jeito best of, com a multidão, que enchia literalmente o espaço disponível, a reconhecer e acompanhar alguns dos refrões, facto que ficou particularmente visível em Go West.

Palco simples, apenas decorado por pequenas colunas que se iluminavam de quando em vez, uma parafernália de teclados para Chris Lowe e pouco mais. Neil Tennant e companheiro foram pontuais, entrando em palco às dez da noite, agradecendo à chuva a não visita para um serão que assim ficou seco e bem vivido. Começaram por nos dar uma nova versão de Rent, um dos temas mais antigos de todo o alinhamento. De capa negra, concentrando nas vestimentas e gestos a pouca teatralidade da encenação simples, Neil Tennant fez as honras da casa com os habituais «boas noites» e «obrigados», falando todavia de Lisboa, quando na verdade estávamos a alguns quilómetros da capital. Ninguém se importou.

O desfile de canções entrou então em ritmo de festa para gostos dançáveis, com Flamboyant (um dos inéditos da antologia Pop Art) e uma leitura actualizada de West End Girls, o cartão-de-visita de há 20 anos que continua com sabor agradável e incrivelmente não datado (tal é o surto de clones que entretanto polvilham o circuito e reactivaram certas linguagens a que não são alheios os Pet Shop Boys). Sem cedências a temas obscuros de álbuns ou a lados B para o fã mais atento, o alinhamento prosseguiu com uma incrível sucessão de singles imediatamente reconhecíveis. Ouviram-se, então, Domino Dancing, Se a Vida É (fazia sentido cantar em Portugal a sua única canção com título em português, sim senhor), Suburbia... Mudança de roupa de Neil Tennant, agora de branco e com casaco de capa cinzenta clara. E as canções continuavam a desfilar: Being Boring, New York City Boy, Always on My Mind... Chris Lowe, concentrado nos teclados, de blusão prateado, boné e óculos escuros mal se mexia. Mal se via também a banda de suporte, um guitarrista, um baixista e um percussionista, literalmente atirados para o fundo do palco.

Sexy Northener e Love Is A Catastrophe foram as excepções numa noite dominada pelos hits. Bom som, bom ritmo em palco, mas uma falta de encenação notória, sobretudo quando comparada com outras produções do grupo. Uma palavra final para o local, tecnológica e formalmente bem apetrechado para a realização de concertos.

in DN

 
Piadas sobre a queda do Fidel Castro...
"Today in Cuba while giving a speech Fidel Castro fell on the floor. The floor was immediately arrested, interrogated and shot." (Conan O´Brien)

"Yesterday was one of the biggest events in world history. The fall of Castro. The bad news: He got back up." (Jay Leno)

"Castro said he’s OK because he’s got the best health care in the world right there in Cuba. In fact, he was rushed to the hospital on their fastest donkey." (Jay Leno)



 
Che Guevara, Debussy e "disco" em Alcochete
Pós hora e meia de música, os Pet Shop Boys terminam com "It's a sin". Mas não foi um pecado - foi apenas um dos melhores concertos do ano. Quem diria, de uma banda com 20 anos de carreira, pela primeira vez a Portugal e num espectáculo livre num "shopping"? Entram primeiro só os dois "boys": Chris Lowe, teclas, de blusão prateado, óculos escuros e boné negro, senhor da parte instrumental, não pronuncia uma palavra toda a noite; Neil Tennant, voz, cabelos a enbranquecer, todo em preto, de longa capa, qual Drácula sedutor. "Rent" é uma declaração para o público ("I'm your puppet") e um retorno ao início da banda, apenas sintetizador e um microfone.

"West End girls" soa tão normal e conhecido que temos que fazer um esforço para lembrar que ninguém soava com eles em 1984, e ainda hoje ninguém soa como eles, apesar de muitos o terem tentado. A patenteada mistura de house, disco, pop e rock, polvilhada com a voz de Neil entre o sussurro íntimo e o tenor irritado, mantém apesar de tudo a "englishness", a qualidade tão difícil de definir mas tangível de um afastamento irónico ao falar de amor e ao olhar de lado o sexo, como algo desejado mas não totalmente desejável. Já com o resto da banda em palco (percussionista e dois guitarristas) Tennant pergunta "Por que demorámos tanto a vir a Portugal." A resposta, "Vamos recuperar o tempo perdido!", passa por "Se a vida é", da fase sambista brasileira, "Domino dancing", "Suburbia" - ou seja, tocaram uma dúzia de "êxitos" e deixaram outros tantos de lado.

Foi um espectáculo despojado - nada das antigas bailarinas, lantejoulas, vídeos ou teatralizações. Apenas uma dúzia de colunas de luzes verticais. O mais importante foi, e como naturalmente deveria ser sempre, a música, servida por uma escolha de arranjos muito consistente, muito virada para os anos 80. O público no Freeport era constituído pelos habituais fãs trintões, alguns convertidos mais jovens e ainda curiosos de várias tribos que tinham ido às compras e ficaram. É sempre um espectáculo para a família, com os filhos às cavalitas, dançando aos ritmos e refrões cativantes para diferentes gerações. Muito longe estão os "shows" dos PSB destinados apenas a "designers gay" vestidos de camisolas negras de gola alta.

"Being boring" é atacada na versão longa, com um instrumental para Neil mudar para roupa branca ("dressed up in white", obviamente) e assim (o eterno "dandy"...) dar finalmente autorização para ser fotografado. É uma grande canção, que define os PSB - tão disponível para reflectir como para dançar ou chorar, inteligente mas leve. "New York City boy", introduzida pelo vocalista com "altura do 'disco'", dá novas indicações das coordenadas do duo: mente em Londres, coração no "country" inglês, corpo em Detroit e Nova Iorque. Surgem também as versões, pois sempre foram mestres da reapropriação, essa arte tão difícil onde quase todos falham, tornando suas "Always on my mind", que deixa de ser a choradeira elvisiana para passar a grande festa em que Neil não pede desculpa por ignorar o amante, "Go west", o hino de liberação homossexual dos Village People, ou o "medley" "Where the streets have no name/Can't take my eyes off you", onde o rock dos U2 passa sem sobressaltos para "hi-NRG".

E houve ainda tempo para revisitar o álbum "Release", com a balada "Love is a catastrophe" e o belíssimo canto de saudade intercontinental "Home and dry", e a revisitação do épico "Left to my own devices", ponto alto de uma "set list" a roçar a perfeição e que se definiu, como bem cantou Neil, como "Che Guevara and Debussy to a disco beat". Ritmo, inteligência e emoção.

In Público


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